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24/Junho/2020

Como explorar os 5 sentidos para lidar com a pandemia?

Há meses, estamos vivendo em função da pandemia. O resultado é um acúmulo de todo tipo de sentimento: medo, raiva, tristeza, expectativa, frustração, ansiedade, empatia, dor, comoção, e por aí vai


Mas será que é possível tirar uma folga da pandemia? Recarregar as energias com alguns momentos de “universo paralelo”? Sim, é possível e, segundo especialistas, você pode buscar alternativas por meio de seus 5 sentidos (olfato, tato, paladar, audição e visão).

“Os órgãos dos sentidos são fundamentais para a percepção da realidade, pois são eles os responsáveis por captar as sensações provocadas pelo meio externo e enviá-las ao sistema nervoso central, que registra e processa a informação recebida. Por isso, explorar cada um destes sentidos pode nos ajudar a compreender e lidar melhor com as emoções e os acontecimentos ao nosso redor”, afirma a psicóloga Flávia Teixeira, mestre em Saúde Coletiva pela UFRJ e pós-graduada em Psicossomática Contemporânea.

Especialistas explicam como fazer uso dos órgãos dos sentidos em benefício próprio, minimizando os impactos negativos do momento atual e ganhando qualidade na saúde mental e física:

Tato: terapia de toque
O tato é responsável pela percepção de cinco sensações básicas: contato, pressão, frio, calor e dor, transmitidas da superfície da pele ao cérebro. Ainda que esteja mais relacionado às mãos, o tato envolve qualquer tipo de sensação experimentada pela pele.

“O toque, como carícia ou carinho, consegue produzir no corpo uma sensação de segurança e proteção. Além disso, ele propicia um efeito de homeostase, habilidade de manter o meio interno em equilíbrio quase constante, independentemente das alterações que ocorram no ambiente externo”, diz a psicóloga Flávia.

E quando se fala em toque, vem à mente a massagem, prática milenar que já foi adotada por muitos hospitais para complementar o tratamento de doenças como enxaqueca, escoliose, má circulação, fibromialgia e hipertensão. Hospitais ligados a universidades consagradas, como a Columbia e a de Stanford, são alguns dos que oferecem a "terapia de toque".

De acordo com a psiquiatra Danielle Admoni, especialista pela Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), as terapias de toque são milenares. “O texto médico mais antigo da Índia, a Ayurveda (1800 a.C.) já prescrevia massagens como uma forma eficiente para tratamento de determinados sintomas”, afirma Danielle. Entre os efeitos positivos da massagem estão o aumento da atenção, a redução da dor e dos hormônios estressores e a melhora da função imune. “No momento atual, em que as pessoas estão sofrendo privação de sono, ela é uma boa aliada contra a insônia”.

Audição: o dom da escuta
A capacidade de perceber sons é possível graças à orelha, que possui receptores de ondas sonoras, transformadas em impulsos elétricos que, por sua vez, levam as informações até o cérebro. Além de melhorar os relacionamentos interpessoais e desenvolver a capacidade de compreensão, o dom da escuta combate o envelhecimento do cérebro e ajuda na prevenção do Alzheimer, segundo estudos do Instituto de Psiquiatria da Universidade de São Paulo (USP).

“Quando uma pessoa expõe suas emoções para outra, circuitos cerebrais relacionados ao bem-estar provocam a liberação do neurotransmissor dopamina. Daí a importância de estar em conexão com as pessoas, ainda que seja por meios virtuais”, reforça Dra. Cristiane Romano, fonoaudióloga, mestre e doutora em Ciências e Expressividade pela USP.

A música clássica é outro aspecto que traz benefícios no momento atual, contribuindo para a saúde mental. Um estudo da Universidade de Stanford constatou que, ao ouvir música clássica, o fluxo de sangue aumenta em diversas áreas do cérebro, ativando regiões ligadas à autonomia, cognição e emoção, ao mesmo tempo em que outras áreas liberam dopamina.

Segundo o cirurgião plástico Dr. Luís Felipe Maatz, membro da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica e com especialização pela HCFMUSP, a música, durante os procedimentos cirúrgicos, já virou rotina. “Ela relaxa o ambiente, aumenta o foco e a concentração da equipe. Diversos estudos científicos já comprovaram a eficiência da música em situações que requerem tranquilidade”.

“Ouvir música clássica constantemente eleva a atividade cerebral que envolve as sensações de prazer e recompensa. Reduzir a dor e a ansiedade, baixar a pressão arterial, combater a insônia, aumentar e despertar emoções, ajudar no desenvolvimento do cérebro das crianças e dos bebês, e atenuar a tensão são alguns dos motivos para ouvir música clássica”, aponta Cristiane Romano.

Olfato: cheiro de infância
O olfato é identificado no cérebro em uma área ligada à emoção. Ele nos permite perceber e caracterizar o mundo que nos cerca. Um dos benefícios deste sentido é a memória olfativa. Quando adultos sentem algum cheiro que lembra a infância ou algum momento de alegria, automaticamente, o cérebro associa a experiência anterior, trazendo do hipocampo a memória olfativa correspondente aquela lembrança.

“Os cheiros da infância permanecem em nossos cérebros como fortes conexões a um passado emocional que, vez ou outra, acessamos para nos lembrar de momentos felizes”, afirma a pediatra Dra. Andressa Tannure, membro da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e especialista em Suporte de Vida em Pediatria pelo Instituto Sírio-Libanês e pelo HCOR.

De acordo com Andressa, pelo fato de os cheiros terem esse poder de despertar emoções, memórias e até reações físicas, eles podem ser usados como aliados para manter o nosso bem-estar físico e mental. “E um dos aromas que mais remete à infância é o cheiro de terra molhada, de planta. Sendo assim, por que não fazer jardinagem ou manter um cantinho verde no apartamento? Se tiver crianças em casa, melhor ainda, pois será uma atividade saudável para entreter os pequenos”, diz a pediatra.

De fato, cuidar de plantas gera uma resposta importante contra depressão, ansiedade e até transtorno bipolar. O contato direto com a natureza libera mais serotonina, é terapêutico para quem sofre de Alzheimer e reduz o risco de desenvolver demência. Além disso, cores, cheiros e sons são ótimos estimulantes do sistema cognitivo. “Uma boa dica para iniciar a prática com as crianças é montar potinhos com hibisco, camomila, cravo e outras especiarias. Depois, peça para elas descreverem os cheiros que sentem. Quem sabe não acabam gostando de um deles e você ainda insere um ingrediente natural e saudável em suas refeições?”, aconselha Andressa.

Paladar: sabor com saúde
O paladar, juntamente ao olfato, é responsável por garantir a percepção do sabor e da textura dos alimentos. “A língua é o órgão responsável pelo sentido do paladar, pois capta e diferencia o sabor dos alimentos (salgado, doce, azedo, amargo), além das sensações de quente e frio”, explica a Dra. Kamila Godoy, dentista, membro da Associação Brasileira de Ortodontia e pesquisadora da Faculdade de Odontologia da USP.

Segundo Flávia Teixeira, psicóloga especializada em Transtornos Alimentares pela USP, a gustação é considerada um sentido ligado ao prazer. “No cenário atual, muitas pessoas acabam se rendendo a alimentos que ativam o sistema límbico no cérebro, responsável pelas emoções. Ao comer doces, por exemplo, há uma diminuição momentânea da ansiedade. Esse efeito acaba fazendo com que a pessoa recorra ao doce sempre que sentir essa ansiedade, como uma espécie de fuga do estado emocional. Além disso, o doce é muito palatável, o que torna a inclinação a comê-lo ainda maior”, esclarece a psicóloga.

Entretanto, há formas de gerenciar a ansiedade com uma alimentação mais saudável. “Conhecer os alimentos que auxiliam no controle da ansiedade é fundamental, principalmente neste momento desafiador para a saúde, tanto física como mental. Além disso, experimentar novos sabores pode motivar o seu paladar na mudança da dieta”, diz Flávia.

Frutas cítricas possuem grande quantidade de vitamina C, que atua na redução do cortisol. “A liberação do cortisol pela glândula adrenal ocorre em resposta aos episódios de estresse, que contribuem para aumentar a ansiedade”, explica a psicóloga. Já a banana contém grande quantidade de triptofano, um aminoácido essencial para ajudar na liberação da serotonina. A fruta também possui potássio e magnésio, controladores do equilíbrio iônico, necessário às reações orgânicas. “Quando esses elementos estão estáveis, promovem relaxamento e um sono tranquilo, condição ideal para a liberação de mais serotonina”.

O espinafre é rico em ácido fólico, cuja função antidepressiva natural é relevante no combate aos sintomas da ansiedade. “Para quem não resiste a um doce, aposte no chocolate, principalmente o amargo. Ele possui flavonoides em sua composição, um antioxidante que também favorece a produção de serotonina. Nos níveis ideais, a serotonina aumenta a sensação de leveza e de bem-estar, melhora o humor e diminui os efeitos negativos da ansiedade sobre a mente e o corpo”, afirma Flávia Teixeira.

Visão: janela para a alma
O olho humano permite ver e entender os diversos elementos do ambiente, sendo um importante meio de desenvolver o pensamento e a comunicação. E, de fato, os olhos podem realmente ser a janela para a alma. É o que sugere um estudo da Universidade Yale, nos Estados Unidos, que concluiu que a maioria das pessoas sentem intuitivamente que seu “eu”, também conhecido como a sua alma ou ego, tem uma forte conexão com o olhar.

“A parte do cérebro em que a autoconsciência surge, chamada córtex pré-frontal ventromedial, está localizada atrás dos olhos. Talvez por isso as pessoas tenham essa sensação, já que parte da nossa percepção emerge nos neurônios dessa região”, justifica a psiquiatra Danielle Admoni.

“Por isso, nestes tempos em que nossos olhos estão cansados de tantas imagens e notícias tristes, é fundamental adotar algumas mudanças. Uma delas é não permanecer no mesmo lugar por muito tempo. Isso ajuda a mudar a perspectiva ou a lente com a qual estamos enxergando uma situação. Ausentar-se por uns instantes de um ambiente tenso clareia nosso olhar, o modo como estamos enxergando algum problema. Esse recuo momentâneo ajuda a monitorar com mais consciência nossos estados internos. Os olhos agradecem (e a mente também)”, finaliza Danielle.


Fonte: Flávia Ghiurghi




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